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Eu, Lástima

Opiniões, histórias e desabafos de uma lástima ambulante.

Eu, Lástima

Opiniões, histórias e desabafos de uma lástima ambulante.

Cartão pr'á mesa 1

25.03.25, Lástima

Quando comecei este blog era uma recém-licenciada desempregada. Depois estagiei, tive o meu primeiro contrato, fiz o mestrado, demiti-me e mudei de emprego. Muita coisa mudou, mas a mais recente mudança que te conto é, sem dúvida, das que mais impactou a minha passagem pela Terra. Claro que só podia estar a falar do cartão-refeição.

Antes, era uma marketer corrida a subsídios de alimentação. Agora, sou uma gestora de podcasts proprietária de um cartãozinho azul que me oferece comida. Subi na vida. Isto se não considerarmos que tenho um fornecedor péssimo e que mal se encontra disponível nos estabelecimentos que não sejam fast-food ou cadeias de supermercado. Não é que seja mau, mas a rede de parceiros é tão diminuta que me impede de alguma vez vir a ser uma connoisseur gastronómica. Só queria um choco frito com limão ou ir a um café da moda à pala do Ticket Restaurant.

Depois há toda uma vertente estética que me abala. O cartão (pelo menos o que tenho) é feio. Lamento, mas é verdade. Tenho cá para mim que a foto usada de um grupo interracial na praça de restauração de um centro comercial, típica de bancos de imagens, nem sequer foi paga e é por isso que o logótipo se encontra ao centro de forma suspeita e berrante. Nada me tira a ideia de que esse foi um estratagema para ofuscar a marca de água de um qualquer primo do iStock. Mas nem tudo é mau. Aqui a amiga já está a aprender a contornar o sistema para não gastar o saldo unicamente nas sopas do Continente.

Não é que eu queira ceder à girl math, mas havendo o poder de comprar coisas e não me sair qualquer dinheiro da conta à ordem acaba por ser inevitável. Quando uso este cartão mágico, entro num metaverso com plafond ilimitado e desbloqueio níveis com as coisas absurdas que consigo comprar com ele. Mudou a forma como vivo a experiência de fazer as compras da semana. E o quanto já me safou e tornou numa pessoa querida mantendo-me forreta! Flores para a sogra? Oferecidas e com direito a brilharete no almoço de família. Maquilhagem barata? Firme e hirta nesta cara laroca. Roupa de desporto do Lidl? As minhas idas ao ginásio nunca mais foram as mesmas.

Na minha cabeça iludida, ter um cartão-refeição dá-me a liberdade de fazer coisas a que não estaria disposta com "dinheiro normal". Além disso, consigo ter uma melhor visão do montante que ponho de parte para sonhos utópicos da vida adulta (como comprar uma casa, cof cof... que isto só em sonhos mesmo).

Voltando ao ponto (porque eu não vim aqui dizer que a habitação é um direito já que neste espaço tendo a não ser séria): será isto tudo imaturidade por ser uma adulta verde ou algo do que escrevi aqui faz sentido?

Pé na Aréola

21.03.25, Lástima

Notícia de última hora: blogueira sofrida dos presuntos vai à pedicura pela primeira vez pós-pandemia. Bom, sei que já é meu apanágio escrever sobre coisas inúteis e inusitadas, por isso nem me desculpo pelo que vou contar a seguir. A tua amiga, outrora com 7 dedos em cada pé, já tem umas patinhas dentro da norma social. Woop woop!

Ah pois, hoje decidi ter um pequeno me time e fui aparar os cascos. Resultado? Digamos que não entrei com o pé direito.

Nunca tinha ido àquele espaço e fui por recomendação de um familiar que, tal como eu, adora um "bom e barato". 12 euros para uma pedicure é um achado que não pensei achar em pleno 2025, por isso lá dei uma oportunidade. Para breve histórico, sempre sofri muito aqui na base desde que me lembro, pelo que uma manutenção marota era essencial para me conseguir manter em pé (desculpa, voltei com os trocadilhos em força). Estava de folga e prontíssima para algum autocuidado, então lá me fui aventurar na marcação que me esperava.

Chego, e por ser nova cliente não fui presenteada com o amigável "olá" que só os habitués têm direito. Tentei meter conversa uma ou duas vezes, fazendo referência à familiar que nos unia, tendo alguma espécie de humor autodepreciativo para quebrar o gelo, e nada. Silêncio total. Quer dizer, isso também não, porque o Spotify Não Premium estava encarregue de passar toda a música espanhola que tinha no seu portefólio. Iria ser uma hora, pensei, bem longa.

Lástima que é lástima não tem direito a momentos de paz. Do nada, qual cavaleira andante salvadora das interações tímidas, surge, diretamente das traseiras do espaço, a dona Alda. Quem? O meu novo ídolo.

91 anos, olho azul e cabelo acabadinho de ser arranjado. Esta senhora estava pronta para pôr a conversa em dia - não comigo, que nunca me tinha visto mais gorda, mas com a encarregada dos meus calcantes. Começam em amena cavaqueira, eu a assistir já mais contente porque deixei de sentir pressão para conversar, e é quando o inesperado acontece. 

Não havia bem motivos ou requisitos,  mas o meu novo modelo a seguir, completamente do nada, decidiu mostrar-me (ou nos, já que a conversa nem era comigo) as mamas. Vou deixar-te refletir sobre o que acabaste de ler. Mamocas de uma quase centenária.

Ninguém pediu, porém a dona Alda entregou. E eu de berbequim na pata, sem poder fugir ou buscar lixívia para desver o que tinha acontecido. Depois deste momento de confraternização, aprendi tudo sobre a vida da senhora: quantos maridos teve, o que fez e o que faz, quem cuida de si, que teorias tem sobre a vida, as fofocas do bairro... ficámos BFF's.

E pronto, o que achava que seria uma hora de gelo transformou-se em meia hora bem caliente. Contra tudo o que imaginava, nesta ida à esteticista, acabei por cair de pé.

Herdeira Noveleira

20.03.25, Lástima

Preciso de falar do meu vício do momento. Não, não é o Pipy da Cristina que isso já perdeu o hype. Também não é o "Adolescência" que tem vibrado na Netflix. É mesmo a novela "A Herança" da SIC.

É que é assim: eu amo um bom cliché. Se tiveres uma história para lá de previsível com atores gostosões (e gostosonas e gostosones, que uma querida esteve fora mas continua inclusiva) diz-me. Critérios? Não tenho. Foleirices? Amo. Sinceramente? Não confirmo nem desminto.

Se não vês esta novela, deixa-me pôr-te a par: estás em Ribeira Fria - na verdade, no Montijo e na photoshoplândia - e tens a Sofia (Patrícia Tavares), uma mecânica pobre que perdeu a oficina, já tinha perdido a casa e agora tem de se desenvencilhar. Com ela, tens também a Teresinha (Laura Dutra), a afilhada desbocada e protagonista do grande plot de gato e rato que provavelmente já atingiu o teu TikTok. Sofia tem uma filha, a Ana (Bárbara Branco), que fugiu de casa há 10 anos para namorar com um homem mais velho que trabalhava na noite de Albufeira e nunca mais deu sinal de vida. Temos então os ingredientes todos para uma mãe guerreira acabadinha de sair do forno.

A história começa com Sofia a ser despejada da oficina pelo senhorio ruim. Num ato de desespero para arranjar dinheiro, a nossa protagonista arranja um trabalho de um dia na herdade dos Novais (podia ser dos de Linhaça, mas acho que o Henrique Dias se apoderou desse apelido para sempre). E quem são os Novais? A família mais rica do sítio, agrobetos de primeira apanha cujos cabecilhas são, nem mais nem menos, que Raul (Virgílio Castelo) e Brígida (Sofia Sá da Bandeira).

Ora, esta família estava a fazer um evento/competição/mostra/o que for de cavalos e precisava de mais gente a trabalhar lá, e é quando Sofia agarra a oportunidade e se cruza pela primeira vez com Gonçalo (José Mata), o cavaleiro andante lá do estábulo. Até tocam nas mãos um do outro em slow motion para percebermos que o tempo parou mal cruzaram olhares e interagiram pela primeira vez. Só não desenharam faíscas com Inteligência Artificial porque devem ter gasto os créditos grátis todos quando criaram uma "fotografia" da Ana antes de fugir, altura em que pertencia à banda do "Alvin e os Esquilos" porque só isso justifica a falta de proporção nas bochechas. Mas pronto. Tudo um amor.

Bom, na verdade este romance pouco me importa contar porque 1) não quero dar spoilers e 2) venho queixar-me. É que o Gonçalo e a Sofia podiam ser um casal desencontrado graças às vicissitudes da história. Mas o Gonçalo caiu no radar de outra. E não é outra qualquer: é a Ana, segundo nome Beatriz, que voltou à terrinha e se apaixonou pelo namorado - melhor, crush - da mãe. Agora, alguém me explique este incesto platónico.

Voltando ao coiso dos cavalos, Sofia também se cruza com Raul - ou, caso tenham mais pedigree que eu, doutor Raul. O homem parece que viu um fantasma, pois olha para a mecânica equinocultora e vê logo que é a cara chapada da empregada com quem dormiu há uns sépias e engravidou dele. O doutor safado nunca assumiu a criança nem quis saber da sua amiga colorida mas, como os remorsos têm mais efeito quando ganhamos cabelos brancos e vemos que assumir os erros já não nos trazem consequências, decidiu incluir Sofia no testamento, não fosse o diabo tecê-las.

Por falar em diabo - que ponte ótima! -, venho apresentar o Vicente (Ricardo Pereira), filho de um ex-sócio do doutor Raul e que promete vingança. De olho azul penetrante e um objetivo bem fixado, este menino da mamã não vai descansar enquanto não fizer o que ainda não foi feito. 

Aproveitando as pontes temáticas, deixo o detalhe mais insano e que me faz desmanchar a rir sempre que surge. O Vicente, como já percebemos, é um vilão. Mas caso não fosse óbvio, em todas as suas cenas, faz um contacto visual profundo ao som de "É O Diabo" do Pedro Abrunhosa. Eu não sei quem teve esta ideia mas merece um aumento. É completamente delicioso.

Com todo este enredo, tens ainda mais trezentas sub-histórias igualmente cativantes, mas achei que este resumo deveria bastar para te deixar entrar no universo fantástico desta novela de aconchego. E pronto, aqui tens uma recomendação cultural para os dias mais tediosos ou de ressaca. De nada.

Truz-truz

19.03.25, Lástima

Será que ainda sei fazer isto? Devo cumprimentar a blogosfera para ter alguma etiqueta ou finjo demência e escrevo como se nada fosse? Não sei. Só sei que tinha muitas saudades de vir aqui datilografar os meus pensamentos lastimosos - e aventuras, que neste hiato maroto surgiram algumas.

Para resumo rápido: acabei o mestrado (aplausos virtuais pelos meus muy trabalhosos 19 valores numa tese sobre K-Pop porque quis ser diferentona), demiti-me da agência onde trabalhava, chorei e vim para o universo encantado dos podcasts com uma assinatura de e-mail que nem te digo nem te conto. Em simultâneo, bastante turbulência pessoal causadora de devaneios profundos e mudanças radicais de vida. Vê lá: neste período até descolorei a nuca, qual baddie.

Passaram-se cerca de 2 anos de uma Lástima ausente, com uma crise existencial que passou para a crise do quarto de vida e obstáculos dignos da nova temporada dos "Morangos com Açúcar" que, como sabemos, não eram grande coisa. E agora cá estou. A tentar matar saudades da minha casa virtual, a tentar voltar a ser a escritora criativa que descobri que conseguia ser e, mais lamechas ainda, a tentar reencontrar o meu sentido crítico, cómico e destemido.

Não sei se é a depressão Martinho que deu o empurrão que precisava para passar da ideia ao teclado ou se tive uma qualquer epifania, mas cá ando. Sem planos nem estratégias, só opiniões e reflexões parvas. Ainda não sei o que te quero dizer, só sei que quero conversar. Acho que esta versão de Lástima 2.0 é mais feliz se as suas desventuras e desabafos forem partilhados. Mas tem de ser aqui. E tem de ser contigo.

Sim, não tenho grandes respostas. Mas tenho mais uma pergunta: ainda estás aí?