Cartão pr'á mesa 1
Quando comecei este blog era uma recém-licenciada desempregada. Depois estagiei, tive o meu primeiro contrato, fiz o mestrado, demiti-me e mudei de emprego. Muita coisa mudou, mas a mais recente mudança que te conto é, sem dúvida, das que mais impactou a minha passagem pela Terra. Claro que só podia estar a falar do cartão-refeição.
Antes, era uma marketer corrida a subsídios de alimentação. Agora, sou uma gestora de podcasts proprietária de um cartãozinho azul que me oferece comida. Subi na vida. Isto se não considerarmos que tenho um fornecedor péssimo e que mal se encontra disponível nos estabelecimentos que não sejam fast-food ou cadeias de supermercado. Não é que seja mau, mas a rede de parceiros é tão diminuta que me impede de alguma vez vir a ser uma connoisseur gastronómica. Só queria um choco frito com limão ou ir a um café da moda à pala do Ticket Restaurant.
Depois há toda uma vertente estética que me abala. O cartão (pelo menos o que tenho) é feio. Lamento, mas é verdade. Tenho cá para mim que a foto usada de um grupo interracial na praça de restauração de um centro comercial, típica de bancos de imagens, nem sequer foi paga e é por isso que o logótipo se encontra ao centro de forma suspeita e berrante. Nada me tira a ideia de que esse foi um estratagema para ofuscar a marca de água de um qualquer primo do iStock. Mas nem tudo é mau. Aqui a amiga já está a aprender a contornar o sistema para não gastar o saldo unicamente nas sopas do Continente.
Não é que eu queira ceder à girl math, mas havendo o poder de comprar coisas e não me sair qualquer dinheiro da conta à ordem acaba por ser inevitável. Quando uso este cartão mágico, entro num metaverso com plafond ilimitado e desbloqueio níveis com as coisas absurdas que consigo comprar com ele. Mudou a forma como vivo a experiência de fazer as compras da semana. E o quanto já me safou e tornou numa pessoa querida mantendo-me forreta! Flores para a sogra? Oferecidas e com direito a brilharete no almoço de família. Maquilhagem barata? Firme e hirta nesta cara laroca. Roupa de desporto do Lidl? As minhas idas ao ginásio nunca mais foram as mesmas.
Na minha cabeça iludida, ter um cartão-refeição dá-me a liberdade de fazer coisas a que não estaria disposta com "dinheiro normal". Além disso, consigo ter uma melhor visão do montante que ponho de parte para sonhos utópicos da vida adulta (como comprar uma casa, cof cof... que isto só em sonhos mesmo).
Voltando ao ponto (porque eu não vim aqui dizer que a habitação é um direito já que neste espaço tendo a não ser séria): será isto tudo imaturidade por ser uma adulta verde ou algo do que escrevi aqui faz sentido?
