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Eu, Lástima

Opiniões, histórias e desabafos de uma lástima ambulante.

Eu, Lástima

Opiniões, histórias e desabafos de uma lástima ambulante.

DJ, aumenta o som

13.04.25, Lástima

Portugal. Lisboa. Queríamos, desejávamos, conseguimos. Com o virar da crise do quarto de idade, esta jovem não tão jovem foi sair à noite. Mas não foi uma saída à noite qualquer - fui a uma discoteca.

Para breve contexto (já sabes que não sei contar uma história sem todo um preâmbulo), eu sou, à falta de melhor expressão, uma tasqueira. Os meus convívios noturnos distinguiam-se pela arte de ficar na mesa de um bar a jogar Jenga e a beber cerveja enquanto as peripécias vinham até mim. Mas, desta vez, quis que fosse diferente. Desta vez, fui abanar o esqueleto ao som de música latina e, muito surpreendentemente, não estava numa aula de zumba.

Parece que o pós-crise existencial fez com que o meu lobo frontal estivesse mais perto de estar desenvolvido e me obrigasse a prestar atenção ao equilíbrio. Estou a tentar ter uma relação mais harmoniosa no trabalho, na saúde e a redefinir certas bolhas e gavetas da esfera pessoal e social. Neste processo de seleção natural de relações interpessoais (yup, cheguei à fase em que "só quero ter pessoas que me acrescentem", super coach motivacional), acabei por deixar um pouco de parte a vida à luz das estrelas. A com sol também, mas agora estou focada na fase lunar. Isto tem de ser à vez.

Quis abrir uma exceção ao meu modus operandi de eremita e fui ao Cais do Sodré. Sexta-feira à noite, zapping carregado e aventura a caminho.

Ao entrar no estabelecimento noturno, tive um vislumbre do que seria a vida na selva adaptada aos tempos modernos. Os fixes e famosos estavam perto do palco, a viver o seu main character moment enquanto dançavam aos rodopios e se abraçavam como se estivessem a viver uma comédia romântica. Os acabados de chegar, mas que se queriam incluir na ninhada, estavam ligeiramente mais afastados e a tentar imitar as coreografias para parecer tudo uma massa homogeneizada, sem esquecer o telefone sempre na mão para poder registar o momento e comprovar a sua presença no dito evento. Os demasiado cool, apesar de terem pago para entrar na festa, passaram o tempo todo no exterior, a fumar o seu IQOS, se pertenciam à classe beta, ou cigarro de enrolar, se fossem do clã alterno. E depois estava eu, meio confusa e a tentar entender o ecossistema.

Pela descrição parece que fui sozinha a uma discoteca, porém a minha jornada de solo dates ainda não chegou a tanto. Fui com um grupo, mas era um claro peixe fora de água e, à medida que a noite avançava, era inevitável que cada um fosse ter com a sua tribo. Foi estranho, mas compreendo que faz parte e não queria forçar o status quo. Isso deu-me duas oportunidades: 1) a de dançar descoordenadamente sem o receio de parecer tola - já que estava sozinha, mais valia abanar a anca - e 2) a de analisar atentamente este mundo com uma lente renovada. Ao início foi constrangedor, mas agora consigo apreciar a liberdade de experimentar atividades fora da rotina com um twist que nem eu esperava. 

A música estava boa, o ambiente também e a leveza de não sentir qualquer obrigatoriedade em meter conversa ou tentar provar que era suficientemente fixe para estar ali transformou a saída num objeto que a minha "cabeça de conteúdo" adora. Sinto que, na qualidade de croma, fiz um estudo informal à vida dos jovens cosmopolitas e populares. Não sei até que ponto me acrescentou grande coisa mas, ao menos, posso afirmar orgulhosamente que tentei. Tentei sair da casca, tentei cumprir o ritual de pré-festa a que este tipo de eventos obriga e tentei explorar um universo muito fora da minha zona de conforto.

Com isto, não prometo que vá tantas mais vezes a este tipo de coisas. Mas, parece-me, estou a ficar pro na arte de tentar.

Estúdio Ghibl-IA

01.04.25, Lástima

Preciso de me queixar: por favor, parem de assassinar as animações do Estúdio Ghibli.

Como qualquer comum mortal apaixonado por animação, assim que vi o meu primeiro filme - no caso, A Viagem de Chihiro - foi um caminho sem volta. A delicadeza na imagem, a banda sonora épica e a profundidade de cada história prendem-me com um carinho tal que não me deixa ficar calada quando vejo esta nova trend nas redes sociais.

Possivelmente não estou a contar uma novidade mas, agora, todos os feeds andam infestados de ilustrações do ChatGPT a simular os desenhos de Hayao Miyazaki. São muito fofos, é um facto, mas continuam a ser um atentado à propriedade intelectual de uma equipa que, inclusivamente, já se manifestou contra o uso da Inteligência Artificial na arte.

Ver um estúdio que tanto se importa em criar personagens e cenários desenhados à mão, onde uma cena demora horas infinitas para ficar no ponto, ser usado de forma tão insensível magoa este coração frágil. 

Não digo que não goste de uma boa réplica original, mas o livre uso da arte de outrem só para mais um post enerva-me. Enerva-me porque acho escusado, enerva-me porque acho injusto e enerva-me porque acho que abre um precedente para a não atribuição dos devidos créditos aos artistas.

Ainda, há que reforçar o abalo ambiental que é cada utilização num ChatGPT desta vida. Por muito útil que seja em certos casos, cada enter em qualquer plataformas destas depende de muita água e combustíveis fósseis. Não me quero alongar demasiado porque sinto não ter conhecimento suficiente para abordar este tema, mas quis mencioná-lo por saber a sua importância. Deixo aqui alguns artigos interessantes do National Geographic, do Diário de Notícias e da Organização das Nações Unidas (este já com um cruzamento de temas menos relacionado com o que mencionei anteriormente).

Com isto, não quero dizer que sou uma hater ou algo do género. Também não venho dizer que não uso softwares com Inteligência Artificial porque seria uma hipócrita a tentar dar lições de moral. Apenas gostava de refletir sobre um uso mais sensato que podemos ter com este tipo de ferramentas.

Não conseguimos evitar o uso da IA, mas podemos tentar atenuar a coisa. E há pequenas mudanças que ajudam. Deixo a dica: se usarmos o Ecosia, por exemplo, estamos a contribuir para um impacto ambiental mais consciente, onde cada pesquisa se converte na plantação de árvores, proteção de animais e ajuda a comunidades mais necessitadas. Se tiveres alguma outra sugestão partilha!

Eu e a minha t-shirt do Totoro fazemos este humilde apelo.