Bon Appétit
Preciso de tirar isto do peito - melhor, do estômago. Há muito pouca coisa que me deixa tão feliz e realizada quanto um prato cozinhado por mim. Esta conclusão parece simples, insignificante até, mas vem de alguém que, durante muitos anos, teve (ou tem) uma relação conturbada com a comida, que a usa nas situações de aperto e mal vê o seu poder catártico. Durante muitos anos, não tinha grande poder de escolha sobre o que aterrava no prato: era o que havia, e está tudo bem com isso. Mas não me satisfazia. Entre uma relação disfuncional e de desprazer com a comida, cheguei a um ponto em que só a via como combustível para me manter de pé, o sabor pouco importava. Logo eu, que não sei fazer nada sem um pouco de salero.
Nos últimos tempos, trabalhei na inversão destes papéis. Comecei a ganhar o meu espaço, a aventurar-me nos sabores e, sem dar conta, tornei-me naquelas pessoas chatas que, depois de uma dentada, se auto-elogia e rejubila. Este é um desabafo curto, mas inesperado quando faço uma retrospetiva na minha jornada alimentar. Nunca serei um Ljubomir, uma Tia Cátia ou uma Chef Noélia, mas sou esta Lástima, que gosta de cozinhar vários pratos ao mesmo tempo, que não tem medo de especiarias, que adora a sua meal prep e que, a cada garfada, se surpreende com a dança de sabores que foi inventar. Quem diria!