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Eu, Lástima

Um heterónimo que realça o lado mais cómico, crítico e lastimoso da vida de quem me decidiu criar.

Eu, Lástima

Um heterónimo que realça o lado mais cómico, crítico e lastimoso da vida de quem me decidiu criar.

Diário de bordo de uma recém-chegada

episódio 1

04.11.20, Lástima

Confesso que, no alto da minha mente pseudo-sábia, queria, em setembro, escrever-te um texto sobre o meu ano sabático antes de ir para mestrado. Contudo, e tendo em conta que este blog é feito das minhas histórias lastimosas (infelizmente ou felizmente reais), está na hora de passar ao primeiro episódio deste diário de bordo na vida de uma recém-licenciada, recém-chegada ao mercado de trabalho e, de momento, recém-desempregada. 

Isto de arranjar trabalho no meio de uma pandemia mundial não é nada fácil, admito. Na verdade, estava à espera de ter dificuldades porque sou um peixito neste profundo oceano cheio de baleias assassinas e tubarões, mas não sabia que entrar na vida laboral seria tão absurdo. Por isso, hoje trago-te três histórias que marcaram o meu mês de outubro e que te podem alertar sobre algumas armadilhas que este mundo esconde - pelo menos para mim, que comecei esta jornada demasiado ingénua.

Antes de começar com as histórias, faço a ressalva de que a minha busca tem sido virada para o mundo da comunicação, pelo que esse é o único conhecimento de causa que tenho. Além disso, irei manter o nome das entidades em privado que isto não é para levar com processos em tribunal. Agora que já fiz os avisos que precisava de fazer, 'bora ler as desventuras que me esperavam?

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A EMPRESA PRIME QUE NÃO SABE OUVIR UM "NÃO"

Ora vamos lá começar. Era uma vez uma jovem de 21 anos que, até à data, sabe ler. Durante a sua procura ativa por emprego na área de formação, encontrou um anúncio que dizia "Procuramos jovens licenciados em comunicação, comunicação social e ciências da comunicação para fazer parte da nossa equipa". Ela, toda cheia de fé, pensou que tinha acertado na muche e lá se candidatou. No espaço de dias, recebeu uma chamada do recrutador, que se mostrou interessado e marcou uma entrevista para a segunda-feira seguinte. (Portanto, só para situar, tens aqui uma lástima esperançosa sobre a sua vida profissional, baseando-se no anúncio a que se candidatou.) 

Chega o dia D e ela aparece na sede da empresa. Era numa zona toda chique de Lisboa, o que a deixou logo a pensar que iria trabalhar com gente fina. Entra no local, senta-se na cadeira da sala de reuniões e é logo elogiada por tudo o que já tinha feito durante a sua curta jornada na área. "Pode ser que me safe", foi o que ela pensou, acreditando que seria chamada a pertencer à equipa de comunicação da dita cuja. Estava a correr tudo muitíssimo bem quando o recrutador decide ser claro e confessa que, na verdade, o que ele quer é recrutar agentes imobiliários com boa capacidade de comunicação, não pessoas formadas na área para exercer aquilo ao que vinham.

Ela, ao dar conta que tinha sido enganada à grande e à francesa, pediu para dar uma resposta final mais tarde, tendo sido acordado que na quarta-feira mais próxima iria dar o seu veredicto. Chega o dia, o senhor liga, ela recusa educadamente e, como prenda de Natal antecipada, ainda leva com uma reprimenda dele por estar a "desperdiçar o seu talento" e que, dentro de 3 meses, lhe teria de ligar a pedir desculpa porque iria continuar no desemprego. Alguém não está habituado a levar tampas, pois não?

UMA MULTINACIONAL QUE NÃO SABE O QUE É MARKETING

Esta história aqui é quase igual à primeira - só muda o nome da empresa e a função mascarada. Desta vez, encontrei uma oferta de emprego que dizia "Procuramos membros para reforço de equipa no departamento de marketing". Parece bastante claro, não parece? Bem, lá fiz a candidatura e também recebi uma chamada a marcar entrevista que, curiosamente, aconteceu no dia seguinte à da história anterior.

Receosa de ser mais uma vez enganada (considerando como tinha sido a minha última manhã), inspirei fundo e rezei aos anjinhos do mercado profissional que me abençoassem com uma oferta de emprego. Foi desta forma que eu percebi que alguém me há-de ter lançado mau-olhado - porque, mais uma vez, o anúncio não correspondia à vaga. Agora, era suposto eu vender instrumentos para a casa das pessoas - uma espécie de porta-a-porta mas com algumas adaptações face o vírus. Contudo, quando recusei a generosa oferta de ir para a casa de desconhecidos e poder contrair uma doença infecciosa, ninguém me deu um raspanete. Menos mal.

O ÚNICO TRABALHO PARA O QUAL ME ACHAM INTERESSANTE E EMPREENDEDORA

Por fim, vou tocar num tópico que acredito que muitos já viveram: o dos esquemas em pirâmide (ou marketing multinível, vá). Acredito que não seja a única, mas sinto que tenho um íman para atrair colaboradores destas ricas empresas que pretendem, como é óbvio, o bem da comunidade e não são uma espécie de máfia organizada. Já os apanhei no Facebook, no Instagram, no Twitter e até no LinkedIn, por isso venho fazer o meu serviço comunitário do mês e escarrapachar o modelo de mensagem que costumam enviar.

A sequência é simples. Começam com um "Olá, tudo bem?" e passam para uma análise do teu perfil (que indica que, independentemente de quem fores, és sempre super interessante, proativo e empreendedor, como é óbvio de perceber através de um story onde foste comer crepes). De seguida, dizem que fazem parte de um projeto mesmo inovador para Portugal e que, além de nos oferecer imenso dinheiro - quase tanto quanto o que está no cofre do Tio Patinhas - também nos permite abrir horizontes e ser a nossa melhor versão. Depois, há sempre o típico convite para café (que agora, dadas as circunstâncias, é uma videochamada) para veres a apresentação mega deslumbrante que têm para te mostrar. Ah, e claro, resistem em dizer o nome do projeto ou da empresa para não ires pesquisar e ver que... digamos, é peta. Se calhar sou eu que sou descrente, mas parece-me que a bota não bate com a perdigota.

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Com isto, e para concluir esta epopeia de desgraça, queria só deixar uma nota positiva porque acredito piamente que tudo acontece por uma razão e, se a minha ocupação profissional ideal ainda não chegou, mais vale aproveitar as minhas peripécias na sua busca e transformá-las em algo minimamente engraçado (há que tirar algo positivo de tudo, não é mesmo?).

Se, por outro lado, tu que estás a ler isto pertences a uma empresa que acha que precisa de uma lástima com pernas na sua equipa, não hesites em mandar e-mail que eu responderei atenciosamente (e com um pingo de desespero, convenhamos).

Para quem já não é novo nestas andanças, pergunto: que momentos caricatos tens enquanto procuravas trabalho? Tens algumas dicas para mim?

Para quem só se quer entreter com o que escrevo: não percas o próximo episódio, que eu também não!

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